Mara Baroni
João transpira profundamente, a sensação de pânico é crescente, aqueles minutos naquela sala fechada parecem uma eternidade. A sensação é de estar sendo engolido por algo que não tem controle. Ele sofre de claustrofobia, foi esse diagnóstico que seu médico lhe transmitiu. É o estado psicopatológico caracterizado pelo medo de estar ou passar em lugares fechados ou de tamanho reduzido.
Melissa é uma estudante universitária excessivamente tímida, que está tentando novamente retomar seus estudos, trancou o curso duas vezes. O motivo? Fobia social. Joana não consegue falar na sala de aula e nem expôr trabalhos, sem sentir sintomas físicos como: rubor, tremores nas mãos, náuseas e urgência miccional .
O que os dois sujeitos mencionados acima possuem em comum? A fobia, esse sintoma neurótico, que costuma paralisar e inibir o sujeito para a vida.
A palavra phobia se origina do latim científico, que, siginfica medo intenso, ou irracional, hostilidade ou reação mórbida diante de qualquer coisa. Etimologicamante também é o nome de uma divindade grega, que quer dizer pânico, terror, que incutia medo aos inimigos.
Na blibliografia psicanalítica, o caso clínico mais famoso de fobia que Freud publicou foi “ Analise de uma fobia em um menino de cinco anos ( O pequeno Hans) em 1909.
Esse caso foi paradigmático no estudo da fobia que é denominada no grupo das neuroses, de histeria de angústia, além de ter sido uma ótima oportunidade de Freud confirmar suas teorias sobre a sexualidade infantil, complexo de édipo, de castração e angústia de castração.
Vamos rever rapidamnte esse caso clássico de fobia, estudado por Freud, no qual, atuou como supervisor do pai de Hans, que ocupou o lugar de analista com o filho, afim de entendermos um pouco de como a fobia atua psquicamante num indivídiuo.
Segundo Freud, todas as crianças acreditam que todos têm pênis, tanto os homens, como a mulheres, numa fase que ele denominou pré-edípica. Hans não fugiu a essa regra, pois, nessa idade começou a observar “os pipis” nos animais e depois perguntou à sua mãe, se ela também tinha um “pipi”. Nessa mesma época a criança descobre seu pênis e também o prazer, geralmente começa a se masturbar.
Hans era um menino muito apegado à mãe, apesar de também gostar muito do pai. Ele insiste em dormir na cama dos pais e acompanhar a mãe ao banheiro, quando esta vai urinar. Quando tinha 3 anos e meio, nasce sua irmãzinha e ele fica muito enciumado.
Com 4 anos e meio, quando sua mãe estava lhe dando banho, e depois ia aplicar o talco em volta de seu pênis, tomando cuidado para não tocá-lo, Hans tenta “seduzir” a mãe dizendo:
Hans: “ - Porque que você não põe o dedo aí?”
Mãe: “ - Porque seria porcaria.”
Hans: “ - Que isso, porcaria?”
Mãe: “ Porque não é correto.”
Hans ( rindo)”- Mas é tão divertido”.
Com esse recorte do diálogo entre Hans e a mãe, podemos ver que as crianças não são tão inocentes quanto parecem, pois, sentem amor e desejo pelos seus pais. É aí que entra o complexo de édipo.Como amar minha mãe e não ter medo que meu pai “ me castre” por causa desse amor? Isso no caso dos meninos é claro, pois, com as meninas o édipo é diferente, já que elas não possuem pênis, não são ameaçadas de perdê-lo. Não podemos esquecer que esse processo é inconsciente para a criança.
Hans, logo depois desse episódio do banho, ao sair na rua com sua babá, entra em pânico a ver um cavalo e volta em prantos para sua casa, e a partir desse dia, não sai mais de casa por causa da fobia a cavalos, que segundo ele, iria mordê-lo. Freud afirma que as fobias substituem um perigo interno instintual por outro externo e perceptual.
Freud analisando os fatos cronológicos da vida de Hans até a eclosão da neurose, chegou as seguintes conclusões. Os implusos excessivos que Hans sentia, ou seja, afeição pela mãe e o medo e agressividade em relação ao pai geraram um conflito de ambivalência nele. Este, por sua vez, desencadeou um sintoma, que no caso e Hans, foi a fobia a cavalos, que acabou gerando uma inibição, que era não poder sair na rua, para não encontrar os cavalos. Tudo isso para afastar a angústia de castração, que recalcou a idéia “ ser castrado pelo pai” no inconsciente. Houve um deslocamanto do medo do pai para o cavalo. Esse é o preço para todos os seres falantes, a castração, não se pode ter esse objeto, a mãe, é a lei do incesto, cujo o pai é o operador dessa lei.
A fobia seria uma “saída” para essa angústia, na qual ele não pode conter e entender. No caso de Hans que foi analisado pelo seu pai, com a ajuda de Freud, a neurose, apresentada pelo sintoma fóbico, é curada quando o menino descreve duas fantasias, que foram as “soluções” que nosso pequeno pôde conceber para o seu conflito. Na primeira, ele recebia de um bombeiro ( profissional que conserta pias, etc), um pênis novo e maior, superando assim o seu medo de castração. A segunda, iria se casar com a mãe, e seu pai se casaria com a sua ( avó). Não nos esqueçamos que eram fantasias, e que foram construídas afim de amenizarem e viabilizarem uma saída para todo o conflito interno de Hans e seu complexo de édipo. A partir dessa “solução fantasiosa”, ele não apresentou mais fobia a cavalos.
Um fato interessante é que, Freud dizia que todo esse processo era recalcado pela criança e ela quando adulta, não se lembraria de nada. Hans quando tinha dezenove anos foi visitar Freud, e este o preguntou se ele se lembrava desse período de sua vida e da fobia. Hans respondeu que não se lembrava de nada disso, a ser um nome de um balneário que sua família costumava frequentar na sua infância, durante o verão. Disse também que sentiu muito o divórcio dos pais e que adorava sua irmã.
Voltando lá atrás aos nossos personagens, João e Melissa, o que podemos entender de suas fobias? Quais serão os conflitos que ambos estão se deparando? Quais os desejos que não estão conseguindo realizar? Quais angústias que ambos estão deslocando para o medo? O importante é entender que estão deslocando como fez Hans com os cavalos. Pode ser uma relação que ainda não se fez um luto no caso de Joana, e inconscientemente, recalca isso e desloca para o pânico de apresentar seus trabalhos. Pode ser um desejo intenso de mudar de profissão para João, mas o risco é tão grande, que essa angústia também é deslocada para o medo intenso de permanecer em lugares fechados. Enfim, só com a fala, com a manifestação do inconsciente por meio dos atos falhos, dos sonhos e dos sintomas que poderíamos encontrar os verdadeiros conflitos que subjazem as suas fobias. Aí sim, quem sabe como uma trilha que se abre numa floresta, João e Melissa, talvez pudessem abrir um caminho para os seus desejos se manifestarem, mesmo que o preço inicial seja suportar a angústia por sentí-lo, em vez do medo deslocado que é a fobia.
Antes de tentarmos suprimir uma fobia, seria interessante investigar, o que essa fobia está deslocando, pois, ela comparece como sintoma, porque esse sujeito não conhece outro mecanisco psíquico, além da neurose, para lidar com o seu desejo.
Para finalizar, cito aqui um trecho do texto Quando Freud fala das fobias, de Jean Bergès, um psicanalista francês. “ Assim como o perigo real é um perigo que conhecemos, a angústia neurótica é uma angústia diante de um perigo que não conhemos: é um perigo pulsional. Mas o que significa a situação de perigo? Seria o reconhecimento de nossa fraqueza, de nossa aflição diante dela, do que ela tem de traumático”.
Quando nós humanos não conseguimos lidar com as nossas exigências pulsionais, nossos desejos, as fobias, as idéias obsessivas, as conversões histéricas, a depressão, enfim, as variadas manifestações sintomáticas da neurose vem à tona para nos lembrar que estamos vivos que e temos que fazer valer isso!
Bibliografia:
BERGÈS, Jean ; Quando Freud fala das fobias; Internet
FREUD, Sigmund. As Neuropsicoses de Defesa (1984). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Vol.III. Rio de Janeiro. IMAGO 1988
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______________. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). ESB v. VII, p. 234-235. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
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GUNFIRKEL, Aline Camargo; Fobia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.